
te esperaria 130 anos,
130 meses, 130 semanas, horas, minutos, segundos...
Sou o seu não negado três vezes.
Sou seu Magnificat,
seu centésimo qüinquagésimo primeiro salmo
ou sua centésima quadragésima quinta sura.
Sou sua história não escrita, mas prestes, quem sabe, a sê-la.
Sou o diamante bruto escondido
no coração da montanha verde e virgem.
Sou o sonho não sonhado,mas tão real!
Sou a morte que te espia na avenida.
Sou o silêncio que fala,
os ruídos que nada dizem,
sua ausência mais que presente,
seu nada mais que tudo,
sua absurda razão hermética e sombria,
por isso ambígua e louca,
que grita abafada no corpo-claustro.
Sou a escolha não feita ou a outra vida como não conseqüência,
sou seu jogo de palavra um pouco inventivo ou um pouco enfadonho,
sua luz no fim do túnel ou seu túnel no fim da luz,
sou o esboço de obra-prima ou rascunho de um fracasso,
sou seu horizonte ou sua falta,
sou o velho-senil-sombra,
a criança-gargalhada-luz
ou a síntese malsucedida dos dois.
Sou a paz violentada,
a flor pisoteada,
o céu infinito esquecido,
a dor da parturiente, prestes a dar a luz ao próximo genocida,
sou a estrada não percorrida,
criança não nascida,
a ferida crônica,
o câncer no coração da humanidade, que traz em seu bojo a cura,
o você que você não aceitou.
Sou o amor que não amei...
Escreveria 130 páginas de poemas de amor...
Te esperaria 130 anos e etc.
Mesmo sabendo, bem lá no fundo, que tu não virias.
4 comentários:
Ótimos textos.
Me lembrei de Raul Seixas elndo esse poema/texto.
"...O você que você não aceitou...
...Sou o amor que não amei..."
Lindíssimo!
Coloca as palavras com clássi e desenvoltura!
Parabéns!
É perfeito!
Fantástico esse poema...
Senti-me como se toda a realidade do mundo - e toda sua ambiguidade - tivessem sido reveladas para mim através das palavras, mostrando uma realidade-não-realidade, uma verdade oculta (porém óbvia) que se esconde nas frestas do cotidiano e do comum..
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